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Guia prático

Quimioterapia: o que esperar e como se cuidar

Começar uma quimioterapia traz muitas dúvidas. Este guia explica, de forma simples, como o tratamento funciona, o que costuma acontecer em cada ciclo e o que você pode fazer para atravessar esse período com mais segurança e conforto.

O que é

Quimioterapia é o nome dado a remédios que atacam células que se multiplicam rapidamente, como as do câncer. Ela pode ser usada antes da cirurgia, para diminuir o tumor; depois, para reduzir o risco de ele voltar; ou como tratamento principal, para controlar a doença. Muitas vezes é combinada com outros remédios, como imunoterapia ou terapia-alvo.

Não existe uma quimioterapia só. Cada tipo de tumor tem os seus esquemas, que são combinações de remédios, doses e intervalos estudadas para aquela doença. O melhor esquema para você vai ser definido pelo seu oncologista, de acordo com o tipo e o estágio do tumor, o objetivo do tratamento e a sua saúde geral.

Cada remédio também tem um perfil diferente de efeitos colaterais. Um pode causar mais náusea, outro mais formigamento, outro queda de cabelo, e muitos não causam alguns desses efeitos. Por isso, duas pessoas em quimioterapia podem ter experiências muito diferentes, e as orientações da sua equipe sempre valem mais do que qualquer regra geral, inclusive as deste guia.

Como é feita

  • Na veia, em uma clínica ou hospital, com duração de minutos a algumas horas. Alguns esquemas continuam em casa, com uma pequena bomba de infusão que você leva por um ou dois dias.
  • Por comprimidos, tomados em casa, em horários definidos.
  • Pelo cateter: muitos pacientes recebem um cateter totalmente implantado sob a pele do peito. Ele protege as veias do braço e torna cada sessão mais simples.

As pré-medicações

Antes da quimioterapia, você costuma receber na veia, ou em comprimidos, alguns remédios de apoio: as pré-medicações. Elas não tratam o câncer. Servem para prevenir efeitos colaterais, como remédios contra náusea e vômitos, corticoides, antialérgicos e, em alguns casos, soro para hidratar. Por isso, a sessão pode demorar um pouco mais do que a infusão da quimioterapia em si. Às vezes a equipe também receita remédios para tomar em casa nos dias seguintes. Siga os horários, mesmo que esteja se sentindo bem.

Como funciona um ciclo

A quimioterapia é dada em ciclos: um período de tratamento seguido de um período de descanso, para o corpo se recuperar. Os principais sintomas costumam aparecer entre o 2º e o 7º dia depois da aplicação e vão melhorando a seguir. Em muitos esquemas, as defesas do sangue ficam mais baixas cerca de uma a duas semanas depois da aplicação, e se recuperam antes do ciclo seguinte.

DIA 1 aplicação DIAS 2 A 7 mais sintomas DIAS 7 A 14 defesas mais baixas: atenção redobrada a febre NOVO CICLO após exames
Um exemplo de ciclo de três semanas. O seu pode ter outro intervalo. Esquema ilustrativo; a sua equipe informa o calendário do seu tratamento.

Antes de cada ciclo, você faz exames de sangue. Se as defesas ou outros valores ainda não se recuperaram, a aplicação pode ser adiada alguns dias ou a dose ajustada. Isso é comum e faz parte de um tratamento seguro.

Os efeitos mais comuns, e o que ajuda

  • Cansaço. É o efeito mais frequente. Caminhadas leves e atividade física adaptada ajudam mais do que ficar o tempo todo deitado. Respeite os dias em que o corpo pede descanso.
  • Náusea e vômitos. Hoje há remédios muito eficazes para preveni-los. Tome-os no horário certo, mesmo se estiver bem. Refeições pequenas e frequentes, e alimentos frios ou em temperatura ambiente, costumam ser mais bem tolerados.
  • Feridas na boca. Escove os dentes com escova macia e faça bochechos conforme a orientação da equipe. Evite enxaguantes com álcool.
  • Diarreia ou intestino preso. Beba bastante líquido. Diarreia intensa, com várias evacuações por dia, deve ser comunicada no mesmo dia.
  • Formigamento e sensibilidade ao frio. Alguns remédios usados nos tumores gastrointestinais, como a oxaliplatina, deixam mãos, pés e garganta sensíveis ao frio por alguns dias. Evite bebidas geladas e use luvas para pegar coisas na geladeira. Formigamento que não passa entre os ciclos deve ser relatado.
  • Queda de cabelo. Depende do remédio: muitos esquemas não causam queda. Pergunte antes de começar, para se preparar. Veja abaixo o que a touca gelada pode fazer.
  • Pele e unhas. Hidratante diário e protetor solar fazem diferença, porque a pele fica mais sensível ao sol.

Touca gelada: é possível evitar a queda de cabelo?

A touca gelada, ou crioterapia do couro cabeludo, esfria a cabeça durante a aplicação. Com o frio, os vasos sanguíneos do couro cabeludo se contraem e chega menos remédio à raiz dos cabelos. Ela é usada um pouco antes, durante e por um tempo depois de cada sessão.

Paclitaxel (revisão de 2024)70%Rugo, JAMA 201766%Média de 31 estudos61%SCALP, JAMA 201751%Sem touca0%
Proporção de pacientes que perderam menos da metade do cabelo usando a touca gelada. Gráfico elaborado a partir de Rugo et al., JAMA 2017; Nangia et al., JAMA 2017; e da revisão de 31 estudos publicada na Gynecologic Oncology em 2024.
  • Funciona para muitas pessoas, mas não para todas. Nos dois estudos que levaram à liberação nos Estados Unidos, feitos com mulheres com câncer de mama, cerca de 50% a 66% mantiveram mais da metade do cabelo. Sem a touca, praticamente ninguém manteve.
  • O resultado depende do remédio. Funciona melhor com os taxanos, como o paclitaxel, que tem os melhores resultados: perto de 70% em uma revisão de 2024 com mais de 2 mil pacientes. Com as antraciclinas, como a doxorrubicina, o resultado costuma ser bem mais modesto.
  • Quem usa costuma aprovar. Na mesma revisão, cerca de 8 em cada 10 pacientes ficaram satisfeitos.
  • O que incomoda: frio, dor de cabeça e uma sessão mais longa. Raramente é preciso interromper o uso.
  • É seguro? Os estudos não mostraram aumento do risco de o câncer aparecer no couro cabeludo. Mesmo assim, ela não é indicada em alguns casos, como em leucemias e linfomas.
  • Cuidados que ajudam: lavar o cabelo com menos frequência, usar xampu suave, evitar secador quente, chapinha e química durante o tratamento.

Nem todo serviço oferece a touca, e a cobertura pelo plano de saúde varia. Se a queda de cabelo é uma preocupação para você, converse com a sua equipe antes da primeira sessão.

Quando procurar a equipe imediatamente

Febre é uma urgência durante a quimioterapia. Se a temperatura chegar a 37,8 °C ou mais, ou ao valor que a sua equipe indicou, procure atendimento na hora, mesmo se estiver se sentindo bem e mesmo de madrugada. Não tome remédio para baixar a febre antes de falar com a equipe.

  • Calafrios, falta de ar ou dor no peito.
  • Vômitos que não deixam você se alimentar ou tomar os remédios.
  • Diarreia intensa ou com sangue.
  • Sangramentos ou manchas roxas que aparecem sem motivo.
  • Dor, vermelhidão ou inchaço no local do cateter.
  • Confusão, sonolência excessiva ou fraqueza muito forte.

Cuidados do dia a dia

  • Mãos limpas e cuidado com aglomerações, principalmente na semana em que as defesas estão mais baixas.
  • Alimentos bem cozidos e higienizados. Evite carnes cruas, ovos malpassados e alimentos de procedência duvidosa.
  • Vacinas: converse com a equipe antes de tomar qualquer uma. Vacinas como a da gripe são recomendadas, mas algumas vacinas de vírus vivo devem ser evitadas durante o tratamento.
  • Remédios, chás e suplementos: informe tudo o que usa, inclusive produtos naturais. Alguns interferem na quimioterapia.
  • Gravidez: use um método contraceptivo eficaz durante o tratamento, e pergunte por quanto tempo depois dele.
  • Saúde emocional: sentir medo, tristeza ou irritação é comum. Falar sobre isso com a equipe, a família ou um psicólogo faz parte do cuidado.

No dia da aplicação

  • Coma algo leve antes, a menos que a equipe oriente o contrário.
  • Use roupas confortáveis, de preferência com fácil acesso ao peito, se você tiver cateter.
  • Leve um livro, fones de ouvido ou alguém de confiança: algumas sessões são longas.
  • Leve a lista dos remédios que usa e anote suas dúvidas para perguntar.

Um último conselho

Anote, em um caderno ou no celular, como você se sente a cada dia: sintomas, temperatura, o que comeu, o que ajudou. Esse diário ajuda a equipe a ajustar o tratamento e a prevenir efeitos nos ciclos seguintes. Nenhuma dúvida é pequena demais para ser perguntada.

Fontes

  1. Rugo HS, et al. Association between use of a scalp cooling device and alopecia after chemotherapy for breast cancer. JAMA, 2017. doi.org/10.1001/jama.2016.21038
  2. Nangia J, et al. Effect of a scalp cooling device on alopecia in women undergoing chemotherapy for breast cancer: the SCALP randomized clinical trial. JAMA, 2017. doi.org/10.1001/jama.2016.20939
  3. Scalp hypothermia to reduce chemotherapy-induced alopecia: a systematic review and meta-analysis. Gynecologic Oncology, 2024;188:71-80. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38936283

Conteúdo informativo. As orientações da sua equipe sobre o seu tratamento específico sempre têm prioridade.