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Guia prático

Alimentação durante o tratamento do câncer: o que ajuda de verdade

Comer bem faz parte do tratamento. Ajuda a tolerar a quimioterapia, a cicatrizar depois da cirurgia e a manter a força. Este guia mostra como lidar com os sintomas que atrapalham a alimentação e quais mitos evitar.

Por que a alimentação importa tanto

Até 70% das pessoas com câncer ficam desnutridas em algum momento, e isso é ainda mais comum nos tumores gastrointestinais. A desnutrição deixa o corpo mais fraco para enfrentar o tratamento: aumenta os efeitos colaterais, atrasa a recuperação e pode piorar os resultados.

O mais traiçoeiro é a perda de músculo. Ela pode acontecer em silêncio, mesmo em quem não emagrece de forma visível ou está acima do peso. Por isso, durante o tratamento, a prioridade é manter o peso e a força, e não emagrecer.

Fique atento à perda de peso

Avise a equipe se você perder, sem querer, mais do que:

Em 1 semana2%Em 1 mês5%Em 3 meses7,5%Em 6 meses10%
Perda de peso sem querer considerada grave, em relação ao seu peso de antes. Para uma pessoa de 70 kg, perder 3,5 kg em um mês já é motivo para avisar. Gráfico elaborado a partir dos critérios citados no guia de nutrição da SBOC.

Também vale avisar se a fome diminuiu muito, se você está comendo menos da metade do que comia ou se sente que está perdendo força.

Proteína em todas as refeições

A proteína é o que protege os músculos. Inclua uma fonte em cada refeição, inclusive nos lanches: ovos, carnes, frango, peixe, leite, iogurte, queijos, feijão, lentilha e grão-de-bico. Quando a comida não é suficiente, a equipe pode indicar um suplemento nutricional, de preferência combinado com exercício.

Dicas para os sintomas mais comuns

  • Enjoo: faça refeições pequenas, várias vezes ao dia, em lugar arejado e longe do cheiro da cozinha. Alimentos frios, secos ou cítricos e o gengibre costumam ajudar. Beba líquidos entre as refeições, não durante.
  • Falta de apetite e sensação de estômago cheio: coma pouco de cada vez, a cada duas ou três horas, priorizando alimentos mais nutritivos. Não espere a fome chegar.
  • Feridas na boca: prefira alimentos macios e frios ou em temperatura ambiente. Evite os muito quentes, ácidos, apimentados, duros ou secos. Capriche na higiene da boca depois de comer.
  • Boca seca: beba pequenos goles de água ao longo do dia, prefira alimentos úmidos e com molhos, e use balas ou chicletes sem açúcar.
  • Gosto alterado: gosto metálico melhora com azeite, limão ou mel. Ervas, temperos naturais e pratos coloridos deixam a comida mais atraente. Coma o que estiver mais gostoso para você naquele dia.
  • Diarreia: beba bastante líquido, como água, água de coco e chás. Faça refeições pequenas e evite gordura, leite e alimentos que dão gases. Maçã sem casca, banana e tapioca costumam ajudar. Diarreia forte deve ser avisada no mesmo dia.
  • Intestino preso: frutas, verduras, bastante água e movimento.

Segurança dos alimentos

Com as defesas baixas, a higiene dos alimentos fica mais importante: lave bem as mãos e os alimentos, cozinhe bem carnes e ovos, prefira leite e queijos pasteurizados, use água filtrada e evite comida de procedência duvidosa.

Mitos que podem atrapalhar

  • "Existe uma dieta que cura o câncer." Não existe. Dietas cetogênicas, alcalinas, de jejum ou muito restritivas não são recomendadas durante o tratamento e podem fazer você perder peso e músculo. A comida não muda o pH do sangue.
  • "Natural não faz mal." Chás concentrados, ervas e fitoterápicos podem interferir na quimioterapia, deixando-a mais fraca ou mais tóxica. Avise a equipe sobre tudo o que você usa.
  • "Vitaminas extras ajudam." Altas doses de vitaminas e antioxidantes durante a quimioterapia foram associadas, em alguns estudos, a mais volta da doença. Só tome suplementos indicados pela equipe, de preferência com base em exames.
  • "Soro de vitaminas fortalece a imunidade." Os protocolos injetáveis de vitaminas e minerais vendidos para pacientes com câncer não têm base científica.
  • Probióticos em cápsula não são recomendados com as defesas baixas, porque há risco de infecção.
  • "O açúcar alimenta o tumor." Explico esse mito em outro artigo.

Depois do tratamento

Quando o tratamento termina, vale adotar os hábitos que reduzem o risco de câncer: muitos vegetais, frutas e grãos integrais, pouca carne vermelha e quase nada de carnes processadas, menos ultraprocessados e bebidas açucaradas, nada de álcool, peso saudável e atividade física. Leia também sobre obesidade e câncer.

Peça para ser avaliado por um nutricionista logo no início do tratamento. O ideal é que isso aconteça nas primeiras semanas depois do diagnóstico, antes que a perda de peso comece.

Fontes

  1. Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Guia de Nutrição para o Oncologista, 2ª edição.

Conteúdo informativo. As orientações do seu nutricionista e da sua equipe têm prioridade.