Oncologia global
Onde você mora muda a sua chance de vencer o câncer
A medicina já sabe prevenir, diagnosticar e tratar boa parte dos cânceres. O desafio agora é fazer esse conhecimento chegar a todos. Um retrato do câncer no mundo e no Brasil, das barreiras que ainda existem e dos caminhos para superá-las.
O câncer no mundo
Em 2024, foram cerca de 20,6 milhões de casos novos de câncer e 9,7 milhões de mortes no mundo. Uma em cada cinco pessoas vai ter câncer até os 75 anos, e quase todo mundo terá alguém próximo com a doença. Até 2050, o número de casos deve chegar a 35 milhões por ano, e o crescimento será mais rápido justamente nos países mais pobres, onde os casos podem mais que dobrar.
A mesma doença, chances diferentes
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a chance de sobreviver ao câncer depende menos do tumor do que do lugar onde a pessoa vive. Alguns exemplos:
- No câncer de mama e nos cânceres da infância, mais de 85% dos pacientes estão vivos depois de cinco anos nos países ricos. Nos países pobres, menos de 45%.
- Quase metade da população mundial tem pouco ou nenhum acesso a exames básicos de diagnóstico.
- Nos países ricos, o tratamento começa em duas a quatro semanas. Nos de renda baixa e média, pode levar de dois a seis meses.
- Só 14% das pessoas que precisaram de cuidados paliativos, o cuidado que alivia a dor e o sofrimento, conseguiram recebê-los. A morfina, barata e essencial, ainda falta em muitos lugares.
As principais barreiras
- Diagnóstico tardio. Em muitos países, a maioria dos cânceres é descoberta já avançada, quando o tratamento é mais difícil.
- Falta de estrutura e de profissionais. Faltam patologistas, cirurgiões, aparelhos de radioterapia e equipes treinadas, e muitos equipamentos ficam parados por falta de manutenção.
- O custo. Entre 45% e 60% dos pacientes têm gastos com saúde que comprometem as finanças da família. Os remédios novos podem custar centenas de milhares de dólares por ano, e muita gente não consegue completar o tratamento.
- Pesquisa concentrada. Cerca de 90% dos estudos clínicos acontecem nos países ricos, que concentram só uma parte dos casos. Os resultados nem sempre valem para as outras populações.
- Falta de dados. Sem registros de câncer de boa qualidade, fica difícil planejar.
- Desinformação. A grande maioria das pessoas recém-diagnosticadas é exposta a informações falsas sobre o câncer.
Quase 40% dos casos poderiam ser evitados
Boa parte dos cânceres está ligada a fatores que podemos mudar. O cigarro sozinho responde por cerca de 15% dos casos no mundo. Infecções que têm vacina ou tratamento, como o HPV e as hepatites B e C, por cerca de 10%. Álcool, excesso de peso e poluição do ar completam a lista.
Uma conversa que começou há 20 anos
Em 2005, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou sua primeira resolução sobre câncer. Ela pedia que cada país tivesse um plano nacional, registros de câncer, acesso a medicamentos essenciais e à morfina, e atenção especial à prevenção. Duas décadas depois, 82% dos países têm um plano, mas só 27% deles têm dinheiro garantido para executá-lo. Para a OMS, a distância hoje não está entre o que sabemos e o que não sabemos, mas entre o que sabemos e o que fazemos.
Os caminhos
- Câncer dentro da cobertura universal de saúde, com planos nacionais financiados e medidos por resultados reais: sobrevida e qualidade de vida.
- Prevenção: impostos sobre cigarro e álcool, vacinação e ambientes que favoreçam hábitos saudáveis.
- Metas globais concretas: eliminar o câncer do colo do útero, com 90% das meninas vacinadas contra o HPV, 70% das mulheres rastreadas e 90% tratadas; reduzir a mortalidade por câncer de mama em 2,5% ao ano; e chegar a pelo menos 60% de sobrevida no câncer infantil em todo o mundo até 2030.
- Remédios essenciais acessíveis, com genéricos, biossimilares e compras conjuntas entre países.
- Pacientes na mesa de decisão e pesquisa feita para as necessidades de quem mais precisa.
E o Brasil?
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 781 mil casos novos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, ou cerca de 518 mil sem contar o câncer de pele não melanoma. Os mais comuns são o de próstata nos homens e o de mama nas mulheres, seguidos pelo de intestino em ambos.
As diferenças entre as regiões mostram o mesmo problema que a OMS descreve no mundo. No Norte e no Nordeste, o câncer do colo do útero, que pode ser prevenido, ainda está entre os mais frequentes, e o de estômago pesa mais entre os homens. Para o INCA, essas diferenças refletem o acesso desigual à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
Há avanços importantes:
- Em 2023, a Lei 14.758 criou a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no SUS e um programa de navegação, para guiar o paciente do diagnóstico ao tratamento.
- A vacinação contra o HPV alcançou, em dados preliminares de 2025, 85% das meninas e 73% dos meninos.
- O teste de DNA-HPV começou a substituir o preventivo tradicional no rastreamento, inicialmente em 12 estados, e a mamografia de rastreamento foi ampliada para mulheres de 40 a 74 anos.
- Em 2025, 24 novos aparelhos de radioterapia entraram em funcionamento, e outros 131 estão previstos para 2026.
Mas o acesso a tratamentos mais novos ainda é desigual. Na minha pesquisa sobre o acesso ao pembrolizumabe pela Justiça, mostramos como muitos pacientes do SUS precisam de uma ação judicial para receber imunoterapia.
O que cada um de nós pode fazer
- Vacinar crianças e adolescentes contra o HPV e manter a vacina da hepatite B em dia.
- Não fumar e reduzir o álcool.
- Fazer os exames de rastreamento indicados para a sua idade.
- Procurar informação em fontes confiáveis, como o INCA, e desconfiar de promessas milagrosas.
- Conhecer os seus direitos como paciente. O INCA tem uma cartilha sobre os direitos sociais da pessoa com câncer.
Fontes
- World Health Organization. Global status report on cancer 2026: the future we choose together. Genebra: OMS, 2026.
- World Health Assembly. Resolução WHA58.22: Cancer prevention and control. 2005.
- INCA. INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Fev. 2026. gov.br/inca
- Ministério da Saúde. Inca estima 781 mil novos casos de câncer por ano, e Ministério da Saúde amplia o cuidado oncológico. Fev. 2026. gov.br/saude
- INCA. Publicada lei que institui a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no SUS. Dez. 2023. gov.br/inca
- INCA. Direitos sociais da pessoa com câncer: orientações aos usuários. inca.gov.br
Conteúdo informativo.